A Sul da Fronteira, A Oeste do Sol (H. Murakami)

domingo, 18 de maio de 2014



Sabem quando os relógios param e de um momento para o outro voltam a trabalhar mais um bocadinho, quase do nada? O amor é assim. Melhor, o verdadeiro amor é assim. Um relógio parado com tendência a rebuscar um tempo antigo, já gasto mas poderoso na arte de invocar..., num quase paralelismo com a Caixa de Pandora.
Mesmo que o tempo nos leve para outras paragens, o relógio parado algures, acaba por despertar para essa ausência. Uma espécie de vazio que nos ataca na rotina e monotonia dos dias, demasiado certos, perfeitos e ordenados. Há um vazio que não se explica até os ponteiros retrocederam ao tempo em que tudo fazia mais sentido num emaranhado de dias desordenados e angustiantes, mas onde se vivia realmente. Onde havia sentido na desordem e na imperfeição.
É porque amar não é mais do que simplesmente um poderoso «não ter». Viver passa por alcançar um dia após outro na ideia daquilo que foi, o que poderia ter sido ou ainda viria a ser, nesse «não ter» imerso em possibilidades e idealizações que sustentam horas, dias e anos de uma vida aparentemente feliz. Oca, mas feliz e ordenada.
Hajime, que significa «princípio», encontrou desde logo aquela que viria a ser o seu eterno «não ter». Shimamoto foi a sua amiga de infância e primeiro amor. Depois de anos de ausência, sente-se em Hajime a sempre presença desta mulher e a saudade que sustentou os seus dias. A idealização do que foi e poderia ter sido. A sua presença foi apenas a confirmação. Foi esse abrir de uma Caixa de Pandora. O desarrumar da vida perfeita correndo o risco de quebrar a rotina e monotonia dos seus dias tão perfeitos. Mas, segundo ele, valia a pena. Largar tudo, assim. Mexer-se de uma vez por todas, e fazer da coragem o movimento dos pés.
No entanto, ao abrir essa caixa, ao dar corda a esse relógio, Hajime não poderia prever que a sua Shimamoto seria não só o seu princípio, como o seu eterno fim.
 
E a vida, essa, oh, é feita desse «não ter».
Sem isso, não temos nada.
 
 
 
Ao som de: Switchfoot | You
 

2 comentários:

Manuel Cardoso disse...

"quando os relógios param e de um momento para o outro voltam a trabalhar mais um bocadinho, quase do nada"
É isso mesmo... às vezes parece que passamos a vida à espera que o relógio volte a trabalhar mais um bocadinho :(
É essa melancolia (que é também esperança) uma das forças maiores da escrita deste génio japonês.
:)

Denise disse...

É, não é, Manuel?
Foi uma estreia muito feliz este Murakami, para continuar muito em breve! :)

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