O Jardim das Borboletas (Dot Hutchison)

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

«O Jardim das Borboletas» de Dot Hutchison irá, certamente, provocar-lhe uma revolta nas entranhas. O leitor viverá numa eterna curva de Gauss cujas probabilidades de consternação, irritação, impotência e uma náusea sem fim, serão altamente garantidas.
 
Não estamos a falar de um livro que não supere expectativas. Não é bem essa a questão. Estamos, antes, a falar de um livro que pela temática em si, choca e oprime.
A história começa com um relato policial sobre a existência de um misterioso jardim com direito a borboletas e um empenhado Jardineiro. Esqueça agora os filmes da Disney porque: 1) as borboletas são raparigas e 2) o Jardineiro guarda-as em cativeiro para abusos de toda a espécie. 
 
Independentemente da escrita pouca madura de Dot Hutchison, esta é uma história que o prenderá pela curiosidade. São muitas as pontas soltas capazes de o fazer refletir: a personalidade do Jardineiro, dos seus filhos e, sobretudo, das meninas que representam as borboletas.
 
Ao mais astuto não faltarão as questões perante algumas atitudes e condutas por parte das raparigas, mais especificamente, a personagem principal, Inara.
Com é possível, perguntariam, uma jovem violada constantemente, entregar-se de ânimo leve ao filho do Jardineiro? Em que o sexo com ele chega a ser "(...) divertido."?
 
É possível sim. A Psicologia poderá explicar isto com base em duas Síndromes similares: A Síndrome de Estocolmo (simpatia gerada na vítima pelo abusador) e a Síndrome de Lima (inversamente, o abusador desenvolve sentimentos de afeto pela vítima). O ponto alto deste livro, pessoalmente, é que é possível interpretar e localizar as duas síndromes na história.
Há, no entanto, um objetivo particular na Síndrome de Estocolmo: a adaptação psicológica para a sobrevivência. É neste ponto que a complexidade humana só se vem a comprovar através das aparentes distorções de conduta numa situação de extrema pressão psicológica.
 
«O Jardim das Borboletas» é esse retrato fiel de um cenário macabro e as tentativas inconscientes e (aparentemente) distorcidas de um grupo de jovens a quem o destino lhe reservou a pior história.
Mais do que a história em si, recomendo o livro de Dot Hutchison sobretudo pelo alarme à complexidade do ser humano que não pode, nem deve, ser desconsiderada.
 
 
Esta leitura contou com o apoio:
 
 
 
Boas leituras,
 

As nossas almas na noite (Kent Haruf)

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Tudo começa quando Addie, de setenta anos e viúva, se cansa de passar as noites sozinha.
As noites custam a passar e o vizinho Louis, também ele sozinho, parece ser a companhia certa. Num compromisso vago, numa espécie de logo se vê,  aceita a sua proposta: "(...) passar a noite. E conversar."
 
Das noites surge uma ligação muito especial. A partilha de uma cama de conversas durante a noite ditará uma proximidade de quem aos poucos se liga pelas parecenças da solidão. Essa ligação é amizade que cresce, amor que solidifica e saudade que transforma.
 
Com o passar das semanas, as noites parecem já não bastar. Então, sem medos, assumem essa amizade capaz de vencer mexericos e atritos de vizinhos, também eles, ansiosos e expectantes de sorte parecida.

O livro de Kent Haruf é uma lufada de esperança e a certeza de que o amor é descarado, num sentido de humor muito próprio e cujos caminhos serão sempre como Deus: misteriosos.

Mais do que uma história de amor, este livro obriga-nos a refletir sobre as fragilidades da terceira idade, a perda e o luto, as condutas politicamente corretas, seja lá o que isso signifique, e o poder da família em estreita batalha com as vontades próprias.

Estará uma pessoa mais velha condenada às convenções dos mais novos? Estará a pessoa mais velha incapaz de amar e viver como quiser porque a vergonha perante os outros tem de imperar?
Acredite quando lhe digo que Kent Haruf o obrigará a refletir profundamente sobre estas questões, sobre o poder do amor, da solidão e das segundas oportunidades para quem não sabe, nem quer, desistir de viver.


Recomendo com ambas as mãos e mais houvessem.
Boas leituras.


 
Um leitura:

A Estrada Subterrânea (Colson Whitehead)

quarta-feira, 6 de setembro de 2017


 
«A Estrada Subterrânea» de Colson Whitehead, vencedor do Prémio Pulitzer 2017 e o National Book Award 2016, ambos para ficção, conta-nos a  história de vida dos antigos escravos numa plantação  de algodão no estado sulista da Georgia, centrada na jornada de uma jovem mulher, Cora.
"Cora é uma jovem escrava numa plantação de algodão. Parece-lhe impossível fugir ao seu destino sombrio. Até que ouve falar da estrada subterrânea."
Cora, cujo pai morreu ainda antes dela nascer e cuja mãe a abandonou, também ela para fugir, é solitária, peculiar e determinada. Nunca lhe parecera possível escapar do destino cruel em que vivia, no entanto, a chegada de Caesar à plantação, muda-lhe o rumo. A estrada subterrânea surge como a possibilidade de uma fuga tantas vezes idealizada.
 
A título de curiosidade, não há, na verdade da História, uma estrada subterrânea propriamente dita. O que naquele tempo se emergia perante a vida pautada de crueldade para com os escravos, era uma rede de apoio através de vários abolicionistas que, contra todo o sistema, facilitavam os meios possíveis para a fuga dos escravos que decidiam fugir, arriscando eles próprios a sua vida. Entre negros e brancos.
 
O autor refere-se a esses caminhos de uma forma sublime e quase fantástica. Há uma salvação em cada estrada subterrânea, uma esperança que se estende até à próxima paragem, incutindo-lhe características tão específicas que, até ao leitor mais desatento, não as esquecerá. Tornam-se reais pela força, provável, de se quererem verdadeiras.
 
É nesse misto entre a ficção e a crua realidade da escravidão, que Whitehead nos aflige, nos inquieta e nos obriga a refletir sobre um período na história do qual, de alguma maneira, todos nós fazemos parte.
 
Cora representa uma época: o martírio de quem suporta uma vida pautada por abusos, uma desumanidade que nos dói crer e depois, o sonho e a esperança. O amor também.
 
"(...) é algo em que qualquer escravo está sempre a pensar: de manhã, à tarde e à noite. A sonhar. Todos os sonhos são de fuga, mesmo que não pareçam."
 
Numa escrita que apavora, com a mestria de nos transferir, de rajada, para um outro tempo, assusta e prende. Afinal, poderá Cora ser verdadeiramente livre depois de tamanhas provações?
Um livro que reúne um pouco de cada coisa em si mesmo: é um romance, é uma fantasia e é, acima de tudo, uma viagem. Uma viagem de quem foge para se tentar encontrar lá mais à frente.
Cora é, indubitavelmente, uma personagem da literatura que ficará para sempre.
Leia. Conheça. Depois diga-me de sua justiça.

Que livro lindo.
 
 
 
Com o estimado apoio:

Eu e Tu (Niccolò Ammaniti)

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Niccolò Ammaniti é um conceituado escritor italiano, cujas obras têm tido um forte impacto não apenas no seu país como um pouco por toda a parte. São quarenta e quatro os países cujas suas obras se encontram publicadas.
 
«Eu e Tu» conta-nos a história de Lorenzo, um tímido rapaz que sentia não gostar nem precisar das pessoas. Ele não precisava de mais nada que não o conforto quente assegurado pelos pais, pela sua casa e pelas suas coisas.
Chegada a idade de ingressar na escola, a sua falta de competências sociais veio acompanhada da preocupação crescente dos seus pais.
Decidem, pelo melhor de Lorenzo, consultarem um Psicólogo.
 
Perturbação Narcísica. Para os pais, o Psicólogo é que estava tolo.
A perturbação narcísica surge do mito grego de Narciso: o rapaz que despertava a paixão de todas as mulheres, nunca correspondida, numa postura arrogante de quem se basta a si mesmo.
Narciso, ao contemplar o seu reflexo num lago, apaixona-se por si mesmo e perante tamanha agonia, acaba por se suicidar (se desejar saber em maior detalhe sobre este mito, consulte o livro «Adolescentes Violentos» de  Yves Tyrode, Climepsi Editores).
 
Lorenzo conhecia as limitações impostas pela ausência de sentimentos para com os outros. Nada lhe parecia ser prazeroso na companhia de aparentes estranhos e colegas de escola. À mínima provocação sentida, Lorenzo respondia com agressividade, progredindo ao esperado (e desejado) isolamento.
 
A preocupação da mãe fê-lo despertar para a necessidade de mudar alguma coisa. Não intrinsecamente, apenas porque sabia que tal faria a mãe feliz, numa atitude desprovida de autenticidade: apenas de quem faz porque tem de fazer.
 
Como fazer amigos na adolescência com um adolescente inerte emocionalmente? Pela imitação.
Lorenzo começa a entender os filtros, os esquemas e padrões dos colegas mais populares, imitando. Um dia descobre que o grupo popular da escola combina uma viagem à neve.
Sem perceber como, informa a mãe que também fora convidado.
 
Ao encontrar a mãe a chorar de felicidade pelo convite, Lorenzo percebe que já não pode voltar atrás com a mentira. Prepara a viagem com o máximo de detalhe e, com a perícia de um adolescente, engana tudo e todos instalando-se no prédio da cave. Junto com ele, livros, bebidas e comida para assegurar aquela que, para ele, seria a verdadeira viagem de sonho.
 
Não contou, porém, com os imprevistos que a vida, num sentido de humor apurado, se encarrega de criar. Esse imprevisto tem o nome de Olívia, a sua meia irmã.
Olívia é a aragem fresca de quem o obriga a quebrar as suas próprias (e fechadas) regras. É na relação criada numa cave, sujeitos ao mínimo conforto, que Lorenzo perceberá, enfim, que o armário de gavetas meticulosamente arrumado em que transformara a sua vida nunca fora, realmente, o que mais almejou para si mesmo. Sentiu, pela primeira vez, a necessidade de pertencer, de estar e de ser.
Havia, enfim, despertado para uma vida com mais sentido, onde percebe um coração que bate para lá da função do corpo. Um coração que bate, também ele, ritmos de amor e de saudade.
 
Uma pequena história que, independentemente de uma mensagem tantas vezes repetida, nunca é de mais parar para refletir na sua urgência: o lugar das pessoas certas nas nossas vidas.
 
 
Recomendo.
Boas leituras.

No teu deserto (Miguel Sousa Tavares)

terça-feira, 22 de agosto de 2017


Cada vez me convenço mais de que as histórias de amor por começar, inacabadas ou mortas à nascença, são inadvertidamente as que duram para sempre.
 
Em «O Teu Deserto» um homem decide começar a escrever uma história, até então, escondida no seu passado, talvez pelo medo de enfrentar verdades irrevogáveis e finitas.
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«Escrever é usar as palavras que se guardaram: se tu falares de mais, já não escreves, porque não te resta nada para dizer." 
A história retrata a viagem de um homem e de uma jovem, ao deserto. Ele fotojornalista, ela envolta num mistério de quem se tenta encontrar a si mesma.
A viagem é recheada das peripécias mais ou menos previsíveis neste tipo de contexto, contudo, acredito que mais do que a viagem propriamente dita, o que conta nesta pequena história, são as viagens interiores de cada uma destas personagens.
 
Há silêncios que afirmam a certeza da proximidade de duas pessoas. Há certezas de que tal proximidade não reclama dias, semanas e anos para se solidificar. Na verdade, bastaram quatro dias para que a relação deles, até então meros desconhecidos, se tornasse especial.

O amor tem destas coisas. Seja lá de que tipo, duração ou previsão.
O livro de Miguel Sousa Tavares, mais do que centrado numa viagem inesquecível ao deserto, sublinha a importância vitalícia de um alguém que sabe fazer, por nós, a diferença que agita e permite reviver memórias acompanhadas. Talvez por isso muito mais felizes, independentemente do seu fim.

Um livro de memórias, um livro de superação através da escrita, que dá forma, que traz sentido a uma dor que reclama lugar.
Que reclama um nome.

Uma boa surpresa.
Boas leituras.
 

PsicoPAIta (Luís Coelho)

terça-feira, 15 de agosto de 2017


O nascimento de um filho é um dos acontecimentos mais felizes na vida de um casal. É, também, a soma de todas as mudanças que, apesar de previsíveis e esperadas, abalam a estrutura de uma casa.
 
Luís Coelho é publicitário, cronista e humorista. É num registo de humor, quase negro, que apresenta ao leitor uma (quase) sátira muito bem conseguida sobre os desafios atuais da parentalidade.
 
Se aos mais sensíveis a frontalidade do autor poderá chocar, acredite que por detrás dessa rebelião de palavras agridoces, se esconde um pai preocupado e apaixonado pelos filhos. O ponto alto deste livro é mesmo esse: um desabafo sincero e provocador de um pai que, independentemente das dificuldades, se mantém firme no seu papel:
 
"E este é apenas um dos papéis do pai que, antes de ser pai, é muitas outras coisas. É criado das hormonas da mulher, moço de recados, chauffeur, mordomo, empregado, cozinheiro. Enfim, um verdadeiro pau-mandado, ou melhor, pai mandado, lá de casa."
 
O leitor será confrontado a lidar com as mais profundas lamúrias deste pai, não esquecendo a  astúcia para críticas incisivas (e cómicas, claro está) a uma sociedade cheia de pressa, cujo troféu mais cobiçado passa por ser a melhor mãe, o melhor pai, o melhor tudo.
 
O autor sublinha o sentido de oportunidade das crianças. É todo um novo mundo que se afigura e cujas adaptações nem sempre são fáceis de gerir: deixar de fazer parte do grupo dos adultos fixes nas mesas de casamento, passar a falar única e exclusivamente sobre os filhos, guerrear pela melhor posição de pai e de mãe no infantário, resistir a um número cómico de horas de sono, manter a calma quando esta se extinguiu há meses, subjugar-se ao segundo (terceiro ou quarto) lugar na vida da mulher e lidar com cocós sem sentido de oportunidade, são apenas algumas das situações relatadas num humor irrepreensível.
 
Não se deixe iludir pela aparente psicopatia deste pai. Em todos os cenários há um lado bom e um lado mau. Na parentalidade não poderia deixar de ser diferente.
"Mas se, por um lado, anseio pelo descanso que é estar longe, por outro, sinto tantas saudades que o meu coração fica mesmo pequenino. Que feitiçaria é esta?
 
Recomendo sobejamente a leitura deste livro não só pelo humor que percorre todas as páginas mas, sobretudo, pela determinação do autor em expor assuntos que, aposto, todos os pais desejariam mas a quem lhes falta a coragem.
 
Boas leituras!
 

Benjamim (Chico Buarque)

sexta-feira, 11 de agosto de 2017


Chico Buarque é um conhecido músico, um dos nomes mais sonantes da música popular brasileira, sendo também dramaturgo e escritor.

Numa narrativa altamente cinematográfica, este segundo livro do autor conduz-nos às dores de Benjamim, ex-modelo e que, agora, se concentra em analisar, ao mais ínfimo detalhe, o decorrer de uma vida repleta de mistérios por resolver.
O maior mistério chama-se Castana Beatriz. Depois do estranho desaparecimento e morte desta mulher, a única que amou, Benjamim concentra os seus dias já maduros na procura de respostas que lhe possam acalmar o espírito.

Todo o livro se concentra na procura desesperada daquela mulher, da sua história, da sua origem e do seu fim. Encontra, porém, Ariela: mulher que só pode ser encarnação de Castana.
Nunca saberemos.

A história que Chico Buarque nos apresenta assenta numa simplicidade enganosa. O estilo narrativo destaca-se pela subtileza, pela incompletude e, sobretudo, por essa característica de quem consegue fazer oscilar o leitor entre espaços temporais tão diferentes, num vaivém de questões sem resposta aparente.

Mais do que uma história em que um homem segue o rasto de uma mulher, «Benjamim» é a personificação da perda, do amor e das esperanças vãs.


 
Com o apoio:

Amor Líquido (Zygmunt Bauman)

sábado, 5 de agosto de 2017


Zygmunt Bauman é considerado um dos mais atentos observadores das condições do mundo atual. Nessa sequência e fruto das suas investigações, criou o conceito de «modernidade líquida» para a sociedade de hoje. Nada é para durar, aparentemente.
Nasceu na Polónia, em 1925, onde estudou Sociologia na Universidade de Varsóvia, ocupando a cátedra de Sociologia Geral.
 
«Amor Líquido», um dos mais aclamados livros do autor, foca as particularidades (atuais) do relacionamento humano cujos "personagens centrais são homens e mulheres (...) desesperados por terem sido abandonados aos seus próprios sentidos e sentimentos facilmente descartáveis."
 
A tendência dos dias de hoje, em matérias de amores e corações assolapados, é firmada por um receio generalizado. Receio de dar sem receber. Receio de se entregar na incerteza da vontade do outro. Atualmente, as relações amorosas e a criação de uma ligação duradoura é, cada vez mais, sentida como uma armadilha a ser evitada a qualquer custo.
 
Os porquês escondidos entre tanto receio é um dos grandes propósitos do autor.
A ideia de «viver junto» com alguém, dar de si sem arnês, parece cada vez mais uma utopia com sapatos de Cinderela à mistura. Sapatos que não nos permitem desbravar o caminho da intimidade. Em alternativa, caminha-se pelos trilhos de uma modernidade imposta, em grande parte, pelos avanços tecnológicos e as redes que se estabelecem no invisível, no fácil, no imediato. No entanto, mesmo as relações cada vez mais pautadas pelas teclas «enter» e «delete» não deixam, ironicamente, de contribuir para a ansiedade, a pressão e a necessidade de estar, sempre, presente.
 
Os dias de hoje são pautados pela desaprendizagem do amor, este, assente num novo status, muito mais reciclável. Num paralelismo extraordinário, o autor compara as relações pessoais às relações de consumo: vamos usar até deixar de fazer falta. Enquanto o produto está apto, cativante e capaz de nos realizar, pode manter-se ali. Quando deixar de obedecer à regra do bom uso, nada como uma tecla «delete».

Falemos em amores de bolso: são pequenos, capazes de se adaptarem rapidamente e, na mesma medida, capazes de desaparecerem na força da nossa própria vontade.
O que me dirá: interessante ou assustador?
 
Na mesma linha de pensamento de Lucano ao defender a ideia "É natureza do amor ser refém do destino", Bauman aponta-nos o dedo para afirmar que o amor exige a incompletude para encontrar o seu real significado. Talvez a crise de valores que se vive atualmente possa, de facto, ser explicada por dois pontos bem assentes nesta obra: a ausência de coragem e humildade.
 
Não acredite o leitor nessa capacidade tão instantânea de amar, como comida pré-feita. Não acredite o leitor nessa fusão de amor e desejo sendo que, na verdade, o último carece dramaticamente do primeiro, numa simbiose perigosa, mas necessária. Não acredite o leitor que faz parte de uma comunidade através de alertas, constantes, de mensagens soltas. Não acredite o leitor que tais conversas detêm significado. O paradoxo atual das redes sociais passa, essencialmente, por essa ilusão de pertença. A quem? A quê? E quando?
 
São muitas as questões a que Bauman o desafiará refletir.
Muitos outros pontos são abordados ao longo da sua investigação como, por exemplo, a globalização, as políticas e todo um conjunto avassalador de mudanças sociais que, aparentemente, justificam e fazem prevalecer a tendência ao isolamento como utopia de uma segurança vazia. Da construção de um amor-próprio, unilateral e doente à nascença.
 
Pessoalmente, a forma como os laços humanos tendem a afastar-se, cada vez mais, nada tem de interessante. O cenário assustador que Bauman nos revela, permite-nos perceber (mesmo que não queiramos) a constante conspiração contra a confiança.

Vamos pensar mais sobre isto.
 
Recomendo com ambas as mãos.

O Castelo de Vidro (Jeannette Walls)

terça-feira, 18 de julho de 2017

Todas as famílias felizes se parecem umas com as outras mas, para Tolstoi, as famílias infelizes são-no cada uma à sua maneira.
Em «O Castelo de Vidro», Jeannette Walls declara o seu amor a uma família despreocupada, com o coração inflamado por aventuras mas, ainda assim, a sua família.
Com base na sua própria vida, a autora partilha com o leitor, num tom intimista e numa escrita que flui sem artefactos alheios, toda a jornada que a tornou na mulher (lindíssima) que é hoje.
 
 
Jeannette Walls | Ilustração de Jillian Tamaki

 
- Para onde vamos, papá? - perguntei.
- Para onde formos - disse ele.
 
Sem destino. Sem hora marcada. Sem planos de ação de qualquer tipo, os pais de Jeannette deambulam ao sabor do vento, de coração cheio pela aventura somada aos seus dias de eterna ilusão.
Nessa jornada que durou até à adolescência, os filhos seguiam a direito os passos tortos dos seus pais. A infância, de tão pura e inocente, permitiu-lhes a felicidade de receber estrelas e planetas, só seus, pelo Natal. E a infância, de tão pura e inocente, encarou a vida errante junto de dois pais irresponsáveis como a maior aventura das suas vidas. Mas o tempo, esse, desfez as raízes tenras da infância para as substituir pelo peso não só da idade mas, acima de tudo, da fome, do frio, dos abusos, da crueldade dos outros. Uma consciência pesada começava, por fim, a agitar-se em cada um deles.
 
"Andar de volta das crianças que choram só as encoraja, dizia-nos. É um reforço positivo para um comportamento negativo."
 
Entregues à sua própria sorte, os quatro irmãos vivem momentos de constante dificuldade em prol da cegueira de uma mãe artista e de um pai que, apesar de inteligente, opta pela bebida como escapismo à vida que não consegue alterar e ao «Castelo de Vidro», casa dos sonhos, que nunca cresceu para lá de um esquisso velho e sujo.
 
Tudo na vida destas crianças fora pautado por agruras, faltas de bom senso e constância. Se numa escola eles eram dotados, noutra, tinham dificuldades de aprendizagem. E assim, ao sabor do vento dos outros, eles aprenderam a escapar de «comportamentos impróprios», a poupar e criar um orçamento, a trabalhar afincadamente, a sonhar para lá de uma casa só pela metade, com direito a chuva na cozinha, buracos no alpendre e comida estragada.
 
"Se não te queres afogar, tens mesmo de perceber como se nada."
 
Desde pequena, com as queimaduras de último grau pelo corpo, a autora revela-nos o seu esforço, a sua capacidade de resistir a adversidades diárias para, não só aprender a nadar, como aprender a andar pelo seu próprio pé.
 
Uma história capaz de agitar os corações mais indiferentes.
Uma história capaz de nos mostrar de que quando o sonho prevalece e o esforço se desenvolve, a possibilidade de se tornar real cresce na mesma medida da vontade.
Muito bom.
 
 
 
 
Com o estimado apoio:
 


O Deus das Pequenas Coisas (Arundhati Roy)

quinta-feira, 13 de julho de 2017

«O Deus das Pequenas Coisas» é o primeiro romance da indiana Arundhati Roy, tendo sido reconhecido com o prémio Booker Prize 1997.
 
Esta história, precisamente pela simplicidade aparente, prova-nos a magia vitalícia que só a literatura nos oferece, quase de mão beijada.
 
Como só quem escreve com o coração na garganta, Arundhati Roy tece linhas marcadas pelo tempo que vai oscilando na vida de uma família para, numa escrita singular, nos fazer tremer o chão e refletir no quanto a vida é esse sopro. O quanto somos todos fruto dessa teoria do caos. A borboleta que voa lá além e que, por isso mesmo, provocará um tornado sabe lá Deus onde.
 
Em «O Deus das Pequenas Coisas» o leitor acompanhará a  história de três diferentes gerações de uma família de Kerala (Índia). Tudo começa com a chegada de Rahel já mulher, da América, pronta a mergulhar no passado da família e no confronto com tudo o que ali aconteceu.
Ela espera por Estha, o seu irmão gémeo, adormecido num passado que lhes mudou o ritmo aparente das suas vidas simples, pequenas, de quem sabe ler ao contrário e viver contra as marés. Sem nunca esquecer Sophie Mol. Terá, de facto, a sua história começado e terminado com a chegada da prima?
 
Um livro que exige leitura sem arnês. Para muitos trata-se de uma saga familiar, e é. Mas, na mesma medida, «O Deus das Pequenas Coisas» é uma das histórias de amor mais bonitas que alguma vez conhecerá.

Falo da fragilidade das coisas. Do mundo. Das pessoas. Dos laços que se criam para, mais tarde e com conhecimento de causa, estrangularem todos os sonhos. É isso e muito mais que fez da história de Arundhati Roy uma quase obrigatoriedade, demarcada também por um período político difícil, a espelhar as tristezas e dramas de uma família condenada em si mesma.

Fica o amor, independentemente das suas leis e ditames fáceis, de quem não lhe conhece os movimentos e o tenta aniquilar. Dizem, e tão bem, que uma verdadeira história de amor é aquela condenada desde o início.

 
Se é daqueles que, como eu, demorei tanto a conhecer esta história, corra depressa.
Recomendo. Muito.

Humidade (Reinaldo Moraes)

segunda-feira, 10 de julho de 2017

O livro de contos de Reinaldo Moraes é uma promessa que se cumpre para o leitor que deseja desprender-se de assuntos mais sérios e seguir, sem freio, por uma estrada de histórias hilariantes, repletas de bom humor, sexo à mistura e um pouco de amor.
 
Numa escrita despretensiosa, leve e muito arejada, o autor apresenta-nos personagens muito próprias, no entanto, comuns pela partilha de um vazio, estranho, que se sente mas não se toca.
 
O leitor que se atrever a entrar na «Humidade» de Moraes, conhecerá a mulher que reivindica, ferozmente, as funções do seu marido na cama, o homem capaz de se casar para, finalmente, conhecer os prazeres do corpo da mulher, linda de mais, púdica de mais, santa de mais.
Conhecerá, também, a história de um homem, duplamente traído, mas com uma história para contar aos amigos e às amigas. Conto-lhe, apenas, que essa história tem duas assaltantes como personagens principais.
Inclusivamente, entrará numa espécie de mundo novo, para lá do espaço, onde as aventuras se desenrolam sem hora, apenas acontecem pelo bem comum de um desejo partilhado. Eu diria, um senhor desejo.
 
«Humidade» do conceituado autor Reinaldo Moraes é garantia de descontração mas, também, de um retrato sobre a complexidade humana que procura, nos prazeres mais leves, uma fuga sem destino.
 
 
Recomendo!

 
Com o apoio:

A Banda (Chico Buarque) #Coleção Afonso Cruz

segunda-feira, 3 de julho de 2017



A Alfaguara (Penguin Random House) acaba de lançar um projeto com a capacidade de surpreender os mais pequenos e os mais graúdos.
A culpa é toda de Afonso Cruz, que decidiu partilhar com os leitores as suas maiores fontes de inspiração. Fontes essas, agora, transportadas para a magia e eternidade que só um livro lhe assegura.
Nada como eternizar memórias, momentos e inspirações de forma tão enternecedora como poderá constatar neste primeiro livro «A Banda», música tão conhecida (e bonita) de Chico Buarque.
Com ilustrações lindíssimas de Nádia e Tiago Albuquerque, o leitor não só terá a oportunidade de conhecer mais sobre um dos nossos escritores contemporâneos mais influentes como pode, também, imiscuir-se na letra de uma música que, assim e do nada, se transforma numa história para contar a quem quiser.
Através da música de Chico Buarque o autor partilha connosco a ideia de celebração da vida . Na mesma medida em que a banda passa, os corações vão deixando entrar o poder redentor da música, capaz de curar, de reafirmar e se extrapolar novas formas de sentir. De viver.
Sem formato fixo, esta coleção terá a periocidade de dois títulos por ano, sendo que o próximo tem já publicação prevista para Outubro de 2017.
 
A curiosidade, por estes lados, já abunda.
Recomendo vivamente.
 
 
 
Sobre o Afonso Cruz:
 
 
 
 
 
Sempre grata. Sempre honrada.
 

As Oito Montanhas (Paolo Cognetti)

quarta-feira, 28 de junho de 2017

A amizade mais bonita de todas é aquela que pouco ou nada pede. Que existe, assim, simplesmente. A história de Paolo Cognetti, mais do que amizade, fala-nos das fragilidades do ser humano nessa capacidade de amar, dar e ceder.
 
«As Oito Montanhas» retrata a história de amizade de Pietro, menino da cidade, e de Bruno, o menino que sempre viveu nas montanhas. A amizade entre os dois é concebida nas linhas frágeis da infância e que se adensará pelas linhas, agora do tempo, cada vez mais consistentes e seguras de si.
 
Nenhum deles poderia jurar a pés juntos que uma amizade delimitada pelo tempo, perpetuaria pela vida fora. E é aí que me forço a repetir o quanto as amizades mais bonitas são aquelas que pouco ou nada pedem. Estão lá, firmes como um guarda-chuva. Versátil em qualquer estação do ano.
 
Enquanto Pietro, desde jovem, viverá o peso de não ter partilhado o sonho do seu pai, escalando montanhas e amontando aventuras; Bruno viverá cercado dos medos da cidade, das pessoas com quem não lida mas, sobretudo, nesse anseio de quem só encontra paz na solidão de si mesmo.
 
Chegará o momento em que Pietro, fruto da discórdia latente com um pai que parece gravitar e condicionar a vida de uma família inteira, se afasta da montanha e de todas as memórias que aquela lhe ofereceu. Aprenderá, numa jornada solitária, o medo intrínseco de amar. Pietro será um eterno solitário, vagueando pela vida, procurando respostas, precisamente, no lado oposto das questões.
 
Será a morte do pai a trazê-lo de volta à montanha, à vida e a Bruno.
Numa simbiose perfeita que só o tempo sabe tecer, os dois rapazes continuarão, agora, a crescer na solidão da montanha, na construção de uma casa, como sonhou o seu pai, e na compreensão de um tempo que passou, mas (ainda) possível de resgatar.
 
O aclamado livro de Paolo Cognetti vem afirmar a necessidade de voltar aos lugares da infância que nos asseguram uma esperança incólume. Mais que não seja, pelas memórias antes construídas.
 
Um livro maravilhoso, narrado numa espécie de semi-obscuridade em que nem sempre é necessário explicar, tim tim por tim tim, as demandas de um coração desordeiro.

O meu nome era Eileen (Otessa Moshfegh)

segunda-feira, 19 de junho de 2017

São muitos os clássicos da literatura marcados pelas suas personagens. Muitas vezes, podemos pensar que são, precisamente, as particularidades da personagem que tornam um livro num clássico. Não tem de ser necessariamente assim, mas acredito que muito contribua para tal. Pensemos em  Jane Eyre, Hans Castorp ou em Vitangelo Moscarda para nos relembrarmos da força de uma personagem no curso da sua própria história.
 
Eileen Dunlop é uma dessas personagens inesquecíveis pela sua estranheza, particularidades que não lembram ao Diabo e, acima de qualquer coisa, pela sua atroz necessidade de ser amada, adorada e admirada. Deseja apenas um olhar mais atento sobre a sua pessoa sem, no entanto, enganar o leitor quanto às suas compulsões e manias. Quem ama, ama tudo.
 
Otessa Moshfegh conta-nos a história que precede o desaparecimento de Eileen Dunlop e a vida pautada por uma família ausente, um pai alcoólico (outrora polícia dedicado), uma irmã caprichosa e uma casa que se destrói na mesma medida da sua indiferença.
 
É com igual indiferença que encara o seu trabalho num centro de acolhimento de jovens sinalizados. Apaixona-se tal como respira, numa tendência obsessiva de quem procura algum alento no reflexo do outro. Randy, colega de trabalho, será essa grande paixão, até ao dia em que Rebecca, a psicóloga recentemente contratada, lhe mudará o curso de uma vida que já se adivinhava distorcida.
 
O encantamento em torno daquela mulher seria demarcado pelos seus próprios receios. Rebecca era tudo o que Eileen desejava para si mesma: era sensível, bonita, subtil e caprichosa.
Quando Rebecca lhe cede a atenção que sempre desejou de alguém, começa a percecionar a vida com mais alento, com uma quase felicidade nunca então conhecida.
 
É com base nessa amizade que a vida de Eileen conhecerá a viragem que, de certa forma, tanto esperou. As desilusões somam-se na vida de uma rapariga sombria, mas que nem assim, a faz desistir de sonhar por um amanhã diferente.

Ao leitor caberá a tarefa de compreender. Não se deixe convencer pelas manias de uma jovem receosa e insegura. Por mais descabidas que possam ser as atitudes de Eileen, no fundo, o apelo de quem reclama uma atenção nunca tida prevalece, culminando num desaparecimento esperado mas cujos contornos nem ela os poderia imaginar.

Conheça a história de Eileen. Mais do que uma jovem desamparada, o leitor perceberá o quanto o desejo de amor nos pode transformar, imprimindo a necessidade de nos reinventarmos em cenários que acabam, forçosamente, por nos transformar para sempre.


Com o apoio (bem haja!):

Os segredos que nunca nos contaram (Albert Espinosa)

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Hoje venho falar-vos de um livro diferente. Diferente na apresentação e, sobretudo, no seu propósito.
Albert Espinosa, além de um autor bestseller, é também ator, diretor, argumentista e engenheiro industrial. Em «Os Segredos que nunca nos contaram» vem partilhar com os leitores a sua experiência pessoal de superação, particularmente, após a morte do seu pai.
 
Mais do que um livro, o autor acredita que a leitura do mesmo será feita mediante a experiência pessoal de cada um. É, portanto, necessária a inspiração única do leitor para que, no fim, todas as mensagens e inspirações façam sentido e cheguem ao destino certo.
 
Dividido em três partes, seremos conduzidos a uma espécie de autoanálise (inspiradora) através de segredos contados e que nos prometem felicidade, além de (outros) importantes segredos para se viver neste mundo e, por último, poderá conhecer e descobrir o que é isso de «tesouras suaves».
 
O mais cético leitor estará, certamente, a torcer o nariz neste momento. Atrevo-me e vou dizer que, como tantos outros, não deixa de ser um atira-bolas. Não sabe o que isso é? Então leia e, mais tarde, atreva-se a contradizer-me.
 
Baseado nas grandes premissas que deveriam constituir a vida, o autor apela a uma maior concentração de si para si e de si para os outros. No final de contas, o mais importante caberá na palma da sua mão e nas memórias construídas por dias, aparentemente, fugazes.
 
Aqui entre nós, de fugazes nada têm.
Atreva-se a viver.
Atreva-se a desfrutar.
Atreva-se a ser feliz.
 
 
"A vida é aquilo que passa, enquanto fazemos planos."
John Lennon
 
Sempre grata:
 
 
 
 

Contos de Assis #2

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Em «Uma Senhora», Machado de Assis conta-nos a história de D. Camila, reconhecida em qualquer lugar pela beleza, inconfundível, que lhe pertence.
Os dias, semanas e meses que vão passando assumem-se numa afronta traduzida pelos seus primeiros cabelos brancos. O tempo passa e a beleza, essa, compromete-se entre um passado seguro e um futuro que se desconhece. Precisamente pelo desconhecimento, torna-se sombrio e temido.
Ao longo deste pequeno conto, Machado de Assis, no seu estilo inconfundível, sublinha essa necessidade de nos sentirmos belos aos olhos do mundo, através de uma beleza que é garantida pela firmeza das peles, pelo brilho dos olhos, por cabelos negros e sedosos.
D. Camila vive, assim, nesse confronto com a idade, o crescimento da sua própria filha e a vida que acontece, sem dó nem piedade.
Foi Franz Kafka a defender que quem possui a faculdade de ver a beleza, não envelhece.
Machado de Assis, com esta senhora, exalta essa máxima. Afinal, é possível ver uma beleza que, à partida, nada nem ninguém a garantia. São as somas das mais diferentes belezas de uma mulher que, independentemente do tempo que corre, lhe garantem esse brilho irrevogável. Eterno.
 
 
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Com o apoio:
 
 
 

Ao som de: José Gonzalez



Desaparecidos (Caroline Eriksson)

domingo, 4 de junho de 2017


«Desaparecidos» é o primeiro thriller de suspense da autora Caroline Eriksson. Os seus primeiros livros foram baseados em casos reais de assassinatos na Suécia.
 
A história de «Desaparecidos» poderia também, e infelizmente, basear-se numa história real. Esta começa quando uma mulher, Greta, percebe que o seu marido, Alex, e a sua filha, Smilla, desapareceram na ilha no meio do lago Maran.
 
Os pilares da história estão arquitetados mas, agora, esqueça tudo o que eu lhe disse porque a Greta não tem marido nem filha. Surpreendido? Claro que sim.
 
Impostora. Lunática. Vadia. Chame-lhe o que quiser, nessa tendência tão humana ao julgamento fácil. Pode ser isso tudo, pode não ser nada disso. Greta é uma mulher como tantas outras e, como tantas mais, vive na sombra de um passado que lhe moldou a forma de viver o presente e o futuro.
 
Não é minha intenção desbravar consigo mais pormenores desta história. Deve ler, como tantas vezes o digo, sem qualquer arnês. Aí, poderá julgar como eu fiz: com conhecimento de causa.
 
A história de Caroline Eriksson retrata um conjunto de mulheres frágeis emocionalmente e todo o resvalar, esperado, dessa mesma fragilidade. Obviamente, nessa fragilidade cabe um homem igualmente perturbado. Estão assim reunidas as condições mais tristes e lamentáveis na busca, tão irrisória, daquilo que julgam ser amor.
 
Dizem que amar se reveste da importância maior na vida de alguém. Caminhemos em direção a esse amor redentor que nos salvará dos demónios escondidos na gaveta, no armário, na casa inteira. Todas as mulheres desta história carregam essa ilusão esburacada.
Se há uma nota a retirar desta história é, indubitavelmente, o quanto a miséria emocional nos pode enterrar, dia após dia, em esperanças vãs de uma salvação por mãos de terceiros.
 
Ao som de: X Ambassadors
 
 
 
 
Esta leitura contou com o estimado apoio:
 
 

Romão e Juliana (Mário Zambujal)

sábado, 27 de maio de 2017



Mário Zambujal, num estilo tão seu, é um daqueles escritores que jamais desiludem.
Em «Romão e Juliana», no seu jeito inconfundível a misturar comédia e tragédia, vivemos um amor (aparentemente) sem limites, qual Romeu e Julieta.
 
As famílias de Juliana e Romão, inimigos de longa data, jamais poderiam imaginar ou conceber a ideia de um Valebranco com um Pontefina. Sempre me disseram que o amor tem um afinado sentido de oportunidade, aparecendo nos lugares e nas horas mais inesperadas.
 
Foi assim com a Juliana, que num incêndio, conhece Romão e por ele, incendeia também o seu coração assolado. Estaria, assim, o cenário criado à maior tragédia que só o amor pode provocar.
 
Furiosos pela saudade vitalícia, o casal corre perigos, salta muros e rouba beijos um ao outro na pressa das noites que passam velozes de mais.
Até ao dia em que tudo, repentinamente, parece mudar pela obra dos dias, já cansados e desesperados, quem sabe. Força das circunstâncias?
Poderá o amor sobreviver sem obstáculos ou, quiçá, sejam aqueles o seu maior motor de sobrevivência?
 
Mário Zambujal escreve com uma ironia brilhante.
Sempre fiel ao seu estilo narrativo, o autor lança achas a uma fogueira de que, atualmente, muito se fala. Estará o amor, também, em vias de extinção na perspetiva única de um futuro instantâneo e prazeres vagos como a noite? Dá que pensar.
Irónico, mas tão certeiro, vai levar o leitor a olhar para dentro e a questionar-se. Esse é o primeiro passo para que a vida se forre de mais sentido, sobretudo, nestes dias velozes que apagam o essencial priorizando a leveza, essa tal leveza do momento.
 
 
Ao som de: Damien Rice

O deslumbre de Cecilia Fluss (João Tordo)

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Fecha-se, assim, com chave de ouro, uma das melhores trilogias que já tive oportunidade de ler.
 
João Tordo figura, sem reservas, como um dos autores portugueses a reclamar todas as atenções e deslumbres de leitores exigentes.
 
Esta história conduz-nos e confronta-nos com um conjunto de personagens perdidas em si mesmas. Se nos livros anteriores a indiferença, a sensação de perda e culpa eram temas gritantes, em «O deslumbre de Cecília Fluss» tudo se mantém mas na sombra, eu diria figurada, da demência.
 
"O que eu quero dizer com isto é que, para os cães, o passado não existe, pelo menos da maneira que existe para nós - uma história carregada de medo, de angústia, de ressentimento, de dor, entidade viva que transportamos connosco." p.121
 
Esta é a história de Matias Fluss, adolescente carregado com as preocupações típicas dessa idade. Há o sexo que espera urgente, amizades que se consolidem, um tio enlouquecido que admira, a família que parece toldar-lhe os movimentos. Surgem as fábulas budistas, inspiradas pelo professor, numa tentativa simultânea de ausência e procura de si mesmo.
 
A história de João Tordo é belíssima. Neste último livro fecha um ciclo sobre pessoas enterradas numa caixa de Pandora, revelada antes do tempo. Quem nunca se sentiu perdido, desfocado ou diminuído no reflexo de alguém? Quem nunca?
 
É Cecília quem nela carrega a visão turva, e sempre condicionada, de Matias. A relação destes irmãos ditará o futuro de cada um deles, pautado, sempre, pela dor de uma ausência ridiculamente imposta por um destino, quase sempre, traiçoeiro.
 
Porque não esquecer, então?
Porque não, afetuosamente, guardar para si toda uma história até que a demência vença por si mesma?
 
"Temos tanto medo porque achamos que há muito a perder, mas não é assim tanto, as coisas que achamos que nos trazem a felicidade também nos trazem o contrário da felicidade, que é a terrível angústia de nos faltarem." p.177
 
No peso da saudade, da dúvida, de avanços, de retrocessos e de identificações, Matias perdeu-se e fechou-se em si mesmo no vazio que Cecília lhe vendeu, ao decidir desaparecer.
Mais tarde, essa perda gradual surgiria no fio incerto, mas claro, que só o tio Elias lhe poderia garantir.
 
"Toda a gente precisa de um lugar onde transformar a sua dor."
 
Esse lugar seria a ausência palpável do que foi, do que não foi e do que a memória, um dia, decidir de vez apagar. Como as térmitas, subtis, a escarafunchar a madeira.
Mais do que uma história de amor, perda e saudade, a trilogia de João Tordo interroga sobre a força de um coração assolapado, as diretrizes e as jornadas a que nos impele, diariamente, por respostas que acalmem. Se as vamos encontrar, aparentemente, só o tempo e o que fizermos dele, dirá. 
"(...) quando o final, inelutavelmente, chegar, tudo mergulhe numa abençoada vertigem e um sorriso trocista assome aos nossos lábios e possamos saber, finalmente, que se esgotaram as existências, que tudo é sagrado, o que foi feito foi feito, nada a pôr, nada a tirar, e será então que poderemos, finalmente, acolher a imundície humana e a insuportável beleza deste mundo como acolhemos o cálice de uma flor que sabemos morta de antemão, mas que sangra, porque está viva, porque está morta, porque está viva." p.333
 
Ao som de: "Daughter"
 
Obrigada Penguin Random House
 
 
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