sábado, 13 de agosto de 2016

A Peregrinação do Rapaz Sem Cor (Haruki Murakami)














O mais recente livro de Haruki Murakami reúne em si mesmo doses de nostalgia, arrependimento e esperança. Tudo isto feito da forma magistral e característica do autor. Acrescentaria, também, a ternura e sensibilidade em que tal peregrinação é feita, impossível de fazer esquecer Tsukuru Tasaki, personagem principal desta história.
 
Tudo começa com a vontade de Tsukuru em morrer. Em cair do abismo e terminar com tudo, de uma vez. Há fases da vida em que de tanto de se olhar para o abismo, ele vai-se apoderando e conquista-nos. Já alguém o dizia. Está quase a ser assim com Tsukuru, mas algo parecia estar destinado a mudar a sua jornada, a sua peregrinação.
 
Um rapaz calmo, aparentemente sem preferências que se destacassem, Tsukuru viu sempre no grupo dos seus amigos, (cujos nomes representam uma cor, menos o dele, daí o título da obra) a sua paz e a sua própria salvação. A adolescência foi, assim, pautada por uma amizade inesquecível, de laços destinados à eternidade, numa junção que entrelaçaria a sua própria identidade. Cinco amigos, como o número de dedos de uma mão, indissociáveis. Nem um a mais, nem um a menos. O número perfeito para que possa fazer sentido. Como a mão segura que agarra sonhos determinados.
 
Por pouco ambicioso que Tsukuru fosse, um sonho ele tinha: construir estações de comboio. Tal como o nome que o pai lhe dera, que significa criar, ele sempre desejou criar coisas. Construir essas estações de comboios que sempre admirou. Foi precisamente esse sonho que o fez deixar a sua terra Natal, Nagoia, e partir para Tóquio. Os seus quatro amigos, Aka, Ao, Kuru e Shiro, permaneceram no mesmo lugar. Um dia, porém,  inesperadamente, aqueles decidem cortar relações com ele, sem qualquer explicação. Um penso rápido que se arranca sem pedir, que atordoa, que questiona, mas que não responde.
 
Dezasseis anos passariam.
Inerte, Tsukuru recolheu-se em si mesmo, na dor de quem conhece, em primeira mão, o empurrão seco de quem não nos quer mais.
Dizem que o tempo atenua. Eu acredito que o tempo mói, como a Moulinex. E ele foi vivendo assim, um dia de cada vez, que moeu à força de dias que se repetiam, iguais nas questões que nunca se respondiam a si mesmas.
 
Novas amizades viriam, para desaparecerem na mesma medida. Ensinando-lhe um pouco mais de abandono, mas também de aventuras que lhe dariam um pouco de cor aos dias.
 
Depois, numa lufada de ar fresco, e aí reside a beleza deste livro, surge inesperadamente, um amor fresco e sem aviso. Tal como deve ser, para ser verdadeiro. Um gosto de ti.
É Sara quem desbrava esta peregrinação de Tsukuru que, cansado, não ousou confrontar as suas próprias questões, refugiando-se em si mesmo, nos seus comboios, nas suas sombras. Armazenou dúvidas, anseios, nostalgias fora de validade em pequenas gavetas, como ele próprio refere, bem arrumadas, mas sem qualquer discernimento em ou entre si mesmas.
 
 
"Nesse instante, Tsukuru soube. No mais profundo do seu ser, compreendeu por fim. O que o coração das pessoas não é apenas a harmonia. Os corações humanos unem-se através dos desgostos sofridos. Ferida com ferida. Dor com dor. Fragilidade com fragilidade. Não existe silêncio sem um grito de dor, não existe perdão sem derramamento de sangue, não existe aceitação sem a inevitável passagem pelo sentimento de perda. É aqui que se encontram as raízes da verdadeira harmonia." (p.303)

 
Sara. Ou a esperança.
Com tamanha sensibilidade, acompanhamos a leveza desta personagem no encaminhamento de alguém que se perdeu e, nela mesma, se volta a encontrar.
Chegaria, enfim, um motivo para largar a monotonia dos dias e encontrar as razões de um bloqueio que decidira instaurar na sua própria vida.
Há empurrões que nos lançam escada abaixo. Outros, porém, que nos obrigam a subir.
 
Independentemente da incerteza, da dificuldade de apurar as respostas que mais ambiciona, Tsukuru está pronto, enfim, para enfrentar a vida para lá dos tons neutros a que, teimosamente, se resignou.
 
 
"Nem tudo desaparece com a passagem do tempo. (...) Naquela época, acreditávamos cegamente em qualquer coisa, e, mais do que isso, éramos capazes de acreditar em qualquer coisa. E esse tipo de sentimento não pode desaparecer assim, de um momento para o outro, sem deixar rasto." (p.362)
 

Gostei imenso deste livro, como tem vindo a ser um hábito com todas as histórias do autor que resolvo conhecer. Um livro que nos obriga a refletir no quanto as nossas vivências, em determinados momentos, nos marcam indelevelmente.
Cabe-nos, portanto, determinar o quanto o futuro deve, ou não, prevalecer.
 
 
Boas leituras.
 
 
Ao som de:
Amber Run | I Found
And I found love where it wasn't supposed to be
Right in front of me, talk some sense to me


5 comentários:

Carol Mendes disse...

Murakami é sempre maravilhoso! :D

Carlos Faria disse...

Só li uma obra de Murakami, apesar do seu sucesso de vendas continuo sem sentir um grande interesse por conhecer mais a obra dele. O que li não desgostei, mas também não me fascinou, aquele encontro entre o sentimento, o maravilhoso e a realidade faz-me sentir um ambiente de um romântico fácil que não me tem cativado.

Denise disse...

Obrigada pela visita, Carol :)
Boas leituras.

Carlos, olá!
Penso que já li 4 obras do autor, salvo erro... e gostei de todas. Não consigo, no entanto, comparar o meu interesse ao encantamento que muitos leitores assumem pelo senhor, mas sim, é um autor que estimo muito e pretendo continuar a desbravar a obra.
Que livro leu? Eu comecei com «A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol» e nesse, fiquei completamente rendida. Foi o meu ponto de partida para Murakami :)

Boas leituras!

TheNotSoGirlyGirl disse...

Parece um livro maravilhoso :)

Tens um blog espetacular! Adorei! Vou seguir. Dá um saltinho no meu e segue-me também, se quiseres claro ;)

Beijinho ♥
the-not-so-girlygirl.blogspot.pt

Denise disse...

Olá TheNotSoGirlyGirl
Obrigada pela visita.
Este livro de Murakami recomendo muito!

Já a seguir o teu blogue ;)
Beijinhos