Ver(-te)#1

terça-feira, 10 de junho de 2014


O que fica depois de ler? As impressões do livro, claro. Da história, pois claro. Das personagens, sim. Na mente, durante dias e por vezes, para sempre. E as imagens? Perduram, essas, ficam também na memória.

Este tópico trata-se de imagem. Dos reflexos que os livros nos dão. As imagens que perduram na mente. As passagens. Os bocados das histórias que vão escorrendo do livro. Dos pedaços que vão permanecendo e levamos connosco. E que formam imagens, partes que se podem ver, de dentro para fora.

«A Um Deus Desconhecido»
de John Steinbeck, vejo(-te) assim:
 
 
 
"- Sim...a criança é preciosa, mas não tanto como a tua gravidez. Isso é tão real como uma montanha. É um laço que nos une à terra. (...)"
(p.135)
 
 
Ao som de: Lucia | Hold Me

As pessoas felizes lêem e bebem café (A. Martin-Lugand)

sábado, 7 de junho de 2014

Este livro anda por aí. Todos falam nele. Tive o azar de o ler. E a felicidade de ser emprestado.
Confesso que não tenho o hábito de correr às livrarias e comprar as últimas tendências só porque falam muito bem de um ou outro livro. Costumo dizer que os livros têm de me chamar primeiro. Só depois, é que decido levar para casa o contemplado.
«As pessoas felizes lêem e bebem café» é escrito por Agnès Martin-Lugand, psicóloga clínica, e é uma pequena história sobre a morte, a perda, o amor e aquilo que, supostamente, deveria ser a nossa jornada de encontro aquilo que consideramos ser a suprema felicidade na vida.
Confesso que não gostei da escrita nem da forma como o enredo é conduzido, desde o início (demasiado abrupto) ao fim.
 
Neste livro o leitor vai encontrar diálogos do género:
 
"- Félix - murmurei.
- Está tudo bem?
- Não sei onde eles estão, percebes? Não consigo ir vê-los.
- E quem queres tu ver? Não percebo nada. Onde estás? Porque choras?
- Quero ver o Colin e a Clara.
- Estás... no cemitério?
- Estou." (p.38)
 
Sublinhe-se que desde as primeiras páginas o leitor sabe logo que Colin e Clara morreram num acidente. Se os queria ver, estavam onde? Suspiro.
Como diálogos destes, podem encontrar muitos mais.
Não me alongando neste tipo de coisinhas, há um ponto muito mais importante para mim: o tema da morte e a forma como a autora o aborda. Sendo uma psicóloga clínica a escrever este livro, penso que há uma quase insensibilidade na forma como tal tema é aqui abordado pela personagem Diane.
Quando o amor da nossa vida morre, quando o nosso filho morre, o nosso mundo morre também. Morre tudo. A vida dá uma volta tão tremendamente cruel, que quando tentamos novamente vislumbrar o mundo, todas as suas formas não passam de meras abstracções que requerem estratégias, mecanismos novos para se entrar mais uma vez, com muita... cautela.
Com tudo isto o que eu quero aqui referir e sublinhar é que perder alguém é muito doloroso, dói tanto que se torna físico. E requer tempo. E tempo. A autora tenta passar essa ideia mas não passa disso mesmo, uma tentativa muito falhada.
O início do livro parece um furacão, com a morte do seu marido e da filha, esse tal mundo a desabar. De um momento para o outro, não me peçam para contar toda a história, esta Diane consegue quase de um dia para o outro, preocupar-se em depilar as pernas e pôr perfume entre os seios para, citando: "vestir-se para seduzir". Estamos a falar de uma passagem em que praticamente na véspera, a personagem chora desesperadamente por perder a aliança que a unia ao marido.
Vejamos, estes comportamentos também integram a dor da perda, a ilusão e a necessidade de um começar de novo, quase desesperado. Mas então, o que falta aqui? Muitas mais páginas, muito mais conteúdo louvável, bem escrito e consistência a estas personagens. Algo que demonstre realmente o que é sofrer a morte de alguém, perpetuado no tempo, e a capacidade de nos reconstruirmos por dentro e por fora. Essa tal procura da felicidade. Felicidade sustentada em alicerces com sentido.
Parece que estamos perante um livro que teve de ser escrito com muita pressa para chegar a algum lugar e, obviamente, o destino foi ... infeliz.
 
Sublinho também que esta é a minha mera opinião.
Não recomento e deixo o alerta aos mais cautelosos para não comprarem ;)
 
Boas leituras!
 
 
Ao som de: Angels and Airwaves "Do it for me now"

Raposas de Fogo (Joyce Carol Oates)

terça-feira, 3 de junho de 2014

Joyce Carol Oates rapidamente integrou o meu pequeno grupo de autores de eleição. A leitura de «Raposas de Fogo» vem reafirmar essa opinião, cada vez mais consistente.
Estamos perante uma história que narra as confissões de um gangue de raparigas na América dos anos 50, numa altura em que as famílias se começam a dissolver e em que a formação desses gangues de adolescentes começa a surgir com maior destaque.
Ao longo do livro o leitor tem a oportunidade de conhecer em profundidade esse gangue de nome «Raposas de Fogo», desde o seu iminente nascimento, aos seus ideais, motivações e, acima de tudo, à líder Legs Sadovsky no centro deste grupo ímpar de raparigas.
É sobre Legs Sadovsky que tudo se constrói e desmorona, simultaneamente. É ela quem cria neste gangue as razões de ser e de estar perante o mundo, sob o olhar atento de raparigas fiéis que a seguem, sem oposição. De coração, destemidas, encaram o mundo e batalham em conjunto na certeza de mudarem algo, para melhor.
Ao longo do livro, e numa espécie de diário, vamos conhecendo as aventuras e desventuras destas raparigas sob a liderança da inesquecível Sadovsky que sente em si a possibilidade de confrontar, destemida, a injustiça social e, sobretudo, esse Inimigo: todos os homens que não respeitam as mulheres.
Um livro feito de sensibilidade e que consegue, ao mesmo tempo, ser rude e provocador num tema complexo como é o comportamento desviante na adolescência.
Mais uma vez, Joyce Carol Oates no seu melhor.
 
 
"Uma história tão poderosa quanto sensível. Um romance sabiamente esculpido."
(Library Journal)
 
 
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