Ler(-te) em Português de Junho

sexta-feira, 3 de junho de 2016




O ano de 2016 voa e traz-nos, agora, o mês (ainda) pouco quente de Junho.
Com a recente leitura da vida de Eça de Queirós, nada melhor do que me acompanhar, agora, com a leitura de um dos seus maiores rivais: Camilo Castelo Branco e «A Queda dum Anjo».
Vamos lá então!
 
Mais informações sobre este meu desafio literário, aqui.

O Livro dos Prazeres Inúteis (Tom Hodgkinson & Dan Kieran)

quinta-feira, 2 de junho de 2016


Coincidência, ou não, este livro veio parar às minhas mãos no Dia da Criança.
A infância, num sentido figurado, assume-se como os primeiros anos de vida, o princípio de tudo, de todas as coisas, a iniciação às primeiras experiências de vida. E diz a Filosofia, pomposa como só ela sabe ser, que viver é experienciar.
O livro de Tom Hodgkinson e Dan Kieran é um belíssimo exercício para os adultos que se negam aos pequenos prazeres da vida e que são, na verdade, a estrutura que define tudo aquilo que nos deveria mover. Caminhamos apressados na pressa de chegar a algum lado, na certeza de que o futuro tem, forçosamente, as respostas certas aos anseios de um presente muito preenchido, mas como diz o autor, tão acertadamente: "(...) acreditar no futuro, é completamente irracional. O futuro ainda não aconteceu, portanto não passa de uma mera abstracção." (p.10).
Assim, eu definiria este pequeno livro como um belo exercício de promoção à deambulação e contemplação das coisas simples. Por coisas simples, e aparentemente inúteis, os autores falam em tomar banho, apanhar folhas das árvores, deambular pela cidade, com calma, estender a roupa e muitas outras pequenas coisas que dão a compostura certa à vida.
Sente que já não tem idade para se sentar num banco de jardim, a ler ou tão somente a conversar? Porque não? É adulto de mais? Atreva-se.
Atiçar o lume é uma das minhas preferidas. Mas nenhuma outra ganha à capacidade de sonhar: "(...) Sonhar serve de ligação ao nosso inconsciente, a nós próprios. É algo que deve ser estimado. E, como Debbie Harry sabiamente nos lembra, é de graça. Não é extraordinário que uma actividade que ocupa tanto tempo nas nossas vidas seja tantas vezes relegada para as esferas das coisas não importantes? Os sonhos são a nossa base, estão no centro daquilo que somos." (p.75)
Sonhe mais. Vá a bibliotecas. Vá a lojas só para ver. Cante. Leia poesia. Conte histórias aos mais pequenos e invente as mais mirabolantes. Não se limite apenas ao que os livros decidem contar. Sinta o vento. Observe as sombras. Valorize os seus chinelos. Vá pescar. Usufrua das boas companhias. Construa castelos de cartas. Ande de bicicleta. Dance. Dobre papel. Experiencie. Deambule. Preste atenção.

Para os descrentes que farão aquele "hmmpf, tenho de ir trabalhar", também eu tenho de ir. Todos nós temos de ir. A ideia dos autores não passa por um cultura global do ócio. A ideia passa, antes, pela cultura da felicidade e essa sim, deve ser cultivada diariamente e integrada na nossa vida como a prática da respiração.

E já agora, sorria mais.
Um sorriso é aliado garantido de um bem-estar que se propaga.


Ao som de: Foo Fighters "All My Life"

Estante de Serviço #2

quarta-feira, 1 de junho de 2016



Angústia Existencial
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Siddhartha
Hermann Hesse
 
Qualquer pessoa que já tenha estado na beira de um penhasco lhe dirá que, juntamente com o medo de cair, existe uma emoção igualmente forte e inteiramente contraditória: a pulsão de saltar. Saber que nada o impede de dar esse salto, o salto para a possibilidade - a perceção de que tem livre arbítrio total, o poder infinito de criar e de destruir - enche-o de horror e de receio. É esse horror, de acordo com Soren Kierkegaard, que está na origem da angústia existencial.
Se tiver a pouca sorte de ter sido atingido por este problema debilitante, está com uma necessidade urgente de uma atualização espiritual. Precisa de reduzir as possibilidades, renunciar ao mundo e juntar-se, pelo menos durante algum tempo, aos ascetas. Precisa de Siddhartha.

Siddhartha, o jovem filho de um brâmane fictício na Índia antiga, transmite alegria a toda a gente - menos a si mesmo. Vivendo uma existência aparentemente idílica, rodeado por uma família que o ama, parece estar destinado a coisas grandiosas. Mas, apesar das sua riqueza material e espiritual, o jovem Siddhartha sente que lhe falta qualquer coisa.
E assim, tal como era prática comum entre os jovens na Índia antiga, parte numa demanda espiritual. Primeiro, junta-se aos Samanas, um grupo de ascetas autoflageladores que negavam a carne e procuravam a iluminação através da renúncia. Totalmente flagelado, mas ainda insatisfeito, encontra Gautama, o Buda, que lhe ensina o caminho em oito partes que ilumina a via para o fim do sofrimento. Não satisfeito apenas com este conhecimento, e desejando atingir o seu objetivo através da sua própria compreensão, conhece Vasudeva, um barqueiro com uma luz interior surpreendente, que parece satisfeito com a sua vida simples. Mas também isto não consegue satisfazê-lo. Mesmo depois de viver uma vida sensual e feliz durante muitos anos com a linda Kamala, ainda falta qualquer coisa a Siddharta. Durante algum tempo considera a morte por afogamento. Mas então lembra-se do surpreendentemente feliz barqueiro Vasudeva e percebe que tem de estudar o rio.
Aí descobre ensinamentos que duram uma vida inteira - incluindo o verdadeiro ciclo da vida e da morte, e o que significa fazer parte de uma unidade intemporal. E desde esse dia ele irradia uma compreensão transcendente, autoconhecimento e iluminação. De todo o mundo vêm pessoas ter com ele em busca de sabedoria e de paz. Pessoas como o leitor.


Li Siddhartha era ainda uma adolescente. Um livro que me deslumbrou, não apenas pela fase de desenvolvimento em que me encontrava, mas sim pela obra magnífica que é. Considero reler um dias destes e recomendo amplamente a toda a gente.
Por aí, quem já leu?
Boas leituras. Terapêuticas.
 
 
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