quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Ronda das Mil Belas em Frol (Mário de Carvalho)


















O mais recente livro de Mário de Carvalho foi a minha estreia com o autor. Trata-se de um conjunto de textos sobre sexo. Nem mais nem menos. É que só por aí, o autor tem muito para nos contar em pequenos contos que reúnem, em si mesmos, as mais frescas, humoradas e caricatas aventuras entre um homem e uma mulher entre lençóis (ou outros cenários que tais).
Penso que não seja livro suficiente para me centrar, por exemplo, na escrita do autor ou no género, pois já me falaram imensas vezes na ambivalência de um autor muito conceituado no panorama literário português. No entanto, fico-me pela impressão positiva que me causou este pequeno livro.
Aqui o leitor será confrontado com a espontaneidade e, sobretudo, com a instantaneidade das relações que, acredito, ser a principal intenção do escritor. O epílogo foi, para mim, uma das partes mais interessantes, como a cereja no topo do bolo para, depois de descortinadas uma série de aventuras sexuais, revelando a intimidade feminina, as suas vontades e receios, surge à tona essa questão tão basilar na nossa atualidade: se há vontade nessa entrega, de parte a parte, o que fazer do remorso que, em igual medida parece atacar, tal como um demónio, a maioria das almas femininas? Mas nem só disso se fazem as questões do autor. Desprendido em matérias de coração, entregar o corpo aos prazeres que este impõe é imperativo, no entanto, as reservas de uma espera a algo maior, que faça sentido, continuam lá. Os autoquestionamentos do personagem sugerem uma espécie de neblina que não o deixa ver claramente mas que auspicia a esperança de, um dia, enxergar e alcançar certezas capazes de mudar um rumo, até então, apenas assegurado por felicidades muito... fugazes.
 
 
 
Mário de Carvalho, um autor para voltar.
 
Recomendo sem reservas.
Boas leituras.
 

6 comentários:

Beatriz disse...

Denise :)
É um escritor de quem nunca li nada, apesar de já ter ouvido falar bem. Coincidentemente, tenho a livro da filha para ler.

Estás a gostar de Plath? Li "A campânula..." quando tinha 18 anos ( e agora apercebo-me que se passaram 10 anos!) e até hoje ainda recordo muito bem certas frases que me deixaram impressionada.
Os contos também são bons, bem como a poesia. Tenho para ler os diários (de 1950 a 1962). Espero que gostes :)

Beijinhos e continuação de óptimas leituras.

Carlos Faria disse...

Sem dúvida que esse livro mostra a abrangência literária do autor, o único livro que li dele "Um deus passeando pela brisa da tarde" (cito o título de memória pode haver algum lapso) está nas antípodas desse género, um romance histórico que mostra ao declínio do império romano no sul de Portugal com a ascensão do cristianismo e o modo de gerir esta mudança social, uma obra casta e de sensatez. Igualmente recomendo.

Denise disse...

Olá Beatriz! :)
Mário de Carvalho recomendo. Segundo dizem, um autor que aborda muitos temas. Gostei muito e tenciono voltar.
Quanto a Plath está a ser muito bom. Desde os meus 15 anos (e no meu caso, eis que se passaram entretanto mais 16! :)) que tenho uma espécie de adoração pela autora. Lia tudo o que eram textos sobre a senhora, a vida dela, as depressões, os poemas, as histórias sobre o suicídio... Quanto a este livro, em específico, ainda não o tinha lido por um capricho que partilho: não gostava de nenhuma edição (vejam lá, vejam lá bem). Até que por fim veio a tua editora ;) e resolveu-me a psicose.
Estou maravilhada!
Beijinho e boas leituras!


Olá Carlos!
Pois lá está, precisamente o que me falaram vezes sem conta.
Pretendo voltar ao autor, com toda a certeza! Gostei imenso destes contos. Do desprendimento, da frescura e, sobretudo, do humor. :)

Beijinhos e boas leituras!

Beatriz disse...

:)
Quão delicioso é quando um livro nos maravilha!?!
Sem dúvida, o percurso de vida de Plath para além de trágico e sofrido tem algo de envolvente e ternurento.
Na mesma altura em que li "A campânula..." também me interessei por Jean Rhys, que teve também à sua maneira uma vida invulgar, digamos. Em comum com Lucia Berlin tinha o alcoolismo.
Vês a maravilha que é a minha editora;)? Finalmente lês Plath!
A tua também está óptima, ainda ontem encomendei entre outros, (de editoras diferentes) "Aulas de Literatura", de Cortázar e o último de Stefánsson.
A Sistema Solar acabou de editar" Memórias Íntimas e confissões de um pecador justificado", de Hogg. Estou em pulgas para que chegue. Recentemente editou também (finalmente!)" O fogo-fátuo", de La Rochelle.

Bem, vou ficar por aqui :)
Beijinhos e boas leituras.

Anónimo disse...

Oh Beatriz quando é que fazes um blog? Falas de autores de quem nunca ouvi e sabes montes de coisas de literatura. A Denise tem grande sorte.

Denise disse...

Olá Anónimo!

Obrigada pela visita.
A Beatriz tem muitos tesouros para partilhar. Já a desafiei um dia destes.

Beatriz: pensa nisso! :)

Beijinhos