Não Contemos ao Dia os Segredos da Noite (D. Marny & J.P. Gourévitch)

domingo, 16 de janeiro de 2011

A vida deles recomeçou com uma caixa de fósforos. Numa noite de tempestade.
A simplicidade das coisas é tão grande que, por vezes, parece tão inconcebível que se ignora. É simples demais e, por isso mesmo, passa ao lado. Só o difícil merece, realmente, atenção. Só o desafio, só aquilo que faz suar, correr, chorar imenso, merece realmente a pena. Como as roupas caras, só essas é que são as de melhor qualidade, porque são caras.
Ela nunca foi cara ou brilhante como as jóias da ourivesaria.
Nunca exigiu grandes investimentos.
Não era dispendiosa ou exigente.
Era simples. De tão simples ser, tornou-se estranhamente difícil. Tornou-se assustadora.
O amor é assustador por isso. Pela sua esmagadora simplicidade. O homem não gosta dessa simplicidade, gosta de complicar para justificar pequenos rasgos que só se explicam pelo seu amor ao sofá velho, pelo outro corpo já conhecido de cor, pela casa quente de outrora.
Há explicações, sim. Mas velhas, canções conhecidas, há muito tocadas, e que todos conhecem. Há camadas de cobardia arrumadas em gavetas de luxo. Há de tudo um pouco, menos simplicidade. Menos amor. Há de tudo, menos simplicidade. Menos amor. Menos verdade. Menos. Menos. Menos de ti.
Tens nos olhos sonhos carregados que não realizas. Tens nas mãos desejos que não agarras. E tens na boca anedotas que escondem inseguranças. Tudo menos simplicidade. Menos amor.
São todos ridículos, menos ela. Ela nunca foi cara ou brilhante como as jóias da ourivesaria.
Nunca fez tatuagens quando faltava o dinheiro para a comida ou contas da luz.
Era simples, bela, e assustadora.
 E por essa razão, exactamente por isso, trancou-a num segredo, convicto de que, jamais, poderia contar ao dia os segredos da noite.

Ao som de: Yellowcard – Gifts and Curses

A Música do Acaso (Paul Auster)

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Ele entrou no carro e não pensou mais.
O baralho de cartas derramou destinos.
E ela está do outro lado da rua.
A rir-se.

“I’m here for your entertainment. And more.”



Ao som de: Adam Lambert “For Your Entertainment”

Florbela Espanca - Poesia Completa

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

«Noite Trágica»

O Pavor e a Angústia andam dançando...
Um sino grita endeixas de poentes...
Na meia-noite d'hoje, soluçando,
Que presságios sinistros e dolentes!...

Tenho medo da noite!... Padre nosso
Que estais no céu... O que a minh'alma teme!
Tenho medo da noite!... Que alvoroço
Anda nesta alma enquanto o sino geme!

Jesus! Jesus, que noite imensa e triste!...
A quanta dor a nossa dor resiste
Em noite assim que a própria Dor parece...

Ó noite imensa, ó noite do Calvário
Leva contigo envolto no sudário
Da tua dor a dor que me não 'squece!


Vai com calma.
Já não sei o que mais preciso de pedir. Calma ou um pouco mais de raiva.
Essa inércia de quem tudo quer e apenas se deita numa cama resignada cansa. Ela pergunta. Queres o quê?
Faz-me gritar. Faz-me berrar. Faz-me bater-te.
Queres o quê?
Essa tua doença alastra e consome quem está por perto. Tão inerte e já nem sei o que é ter vontade de dançar, cantar ou, apenas, sonhar.
Queres o quê?
Eu já não tenho bolas de sabão, nem tão pouco mundos cor-de-rosa. Não há nada que possa dar.
E tu nem me fazes gritar. Faz-me gritar. Zanga-me.
Era uma vez num mundo de lençóis soltos, histórias somente perdidas pelo tempo, e retratos estagnados em paredes imaginárias.
Queres o quê?
Aquela casa já não existe. Nem tão pouco aquele cenário doentio.
As promessas ela mesma queimou.
Não precisa.
6 Portas mal abertas. Tem o cadeado na mão, e a 7º Porta ainda nem abriu.


Às noites trágicas. E ao medo de amar.
Ao som de: Adam Lambert “Whataya Want From Me”
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