sábado, 5 de novembro de 2011

Bolor (Augusto Abelaira)

 
Dou comigo a acreditar, cada vez mais, que carregamos um bocadinho do Fernando Pessoa. Há um bocadinho dele, daquela tormenta, em cada um de nós.
Existe uma insatisfação constante nos passos dados. Uma instabilidade no coração, uma dor de cabeça provocada pelas palavras dele, dela ou do chefe numa manhã atribulada.
Há sempre qualquer coisa provocada.
Nesse emaranho de lãs, de tantas e escuras cores, procuramos avidamente outros nomes, outras pessoas, outros sapatos onde assentar uma alma perdida e desejosa de se encontrar, cansada de tudo e todos que já tem. Outra pessoa, que por não existir, possivelmente por estar longe, essa inacessibilidade, torna-a perfeita. E basta. Basta para dormir melhor sobre a almofada do amanhã prometido pelo despertador rotineiro.
Não paramos de sonhar quando esse despertador grita, e os olhos continuam fechados. Estranhamente fechados. Fechados numa procura irrealista dessa pessoa inacessível, baseados na crença de perfeição invisível, intocável. Porquê? E aquela pessoa à nossa frente? Ali, diariamente? E nós, reflectidos no espelho, diariamente?
Somos humanos. E somos preguiçosos, nessa eterna culpa atribuída ao outro.
Sonhar com aquilo que não temos é mais doce e confortável. Corremos como o hamster, infinitamente, aos círculos, numa procura de tudo e nada.
Sonhar com aquilo que temos e construí-lo, diariamente, esculpir, voltar a esculpir, olhar, voltar atrás, escutar, falar e abraçar isso que temos, aquilo que temos, aquele que temos. É agridoce. É cansativo. Mas é digno.
Sonhar por sonhar é quase uma ofensa. Os sonhos também gostam da perfeição.

Depende dos nossos sapatos. Não da inacessibilidade, e sim da autenticidade. Da nossa “Pessoa”.

Dedicado à tolerância, aos casais, ao casamento.



Ao som de: Adele “Someone Like You”

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