Marina (Carlos Ruiz Záfon)

domingo, 10 de abril de 2011


Ao som de: Aqualung - "Brighter Than Sunshine"

O meu estômago soltou borboletas no dia em que te vi. Como poderia imaginar que elas, borboletas, seriam o botão a prender o meu e o teu casaco, de uma vez só?
Aquela tarde, aquele passeio, aquele mistério que começou por ser a tua casa, trouxe-me o sol dos teus cabelos, inundou-me o coração e depois, e depois, as borboletas mostraram um caminho do qual eu não vou querer sair!
Leva-me contigo. Na bicicleta, ou por caminhos que escondem coisas que só nós sabemos, mas leva-me contigo.
As ruas são simples. Os cheiros são conhecidos. As pessoas também.
Contigo, a cada passo, nascem borboletas em mim que me levam a querer percorrer mundos desconhecidos.
Não me deixes preso a este portão, e ao gato de olhar suspeito.
Leva-me contigo, Marina.
Leva-me contigo. Leva-me contigo por esse mundo de borboletas negras...

Com amor,
Óscar

Livro (José Luís Peixoto)

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Fiquei com inveja do teu nome.
Fiquei a roer as unhas quando descobri. Gostava imenso de poder ser como tu, de ter essas formas e de ter essa capacidade.
Gostava de ir ao notário e que a minha complexidade fosse de uma plena autenticidade. Nem sei explicar o porquê de tamanha necessidade. Mas tu, só por existires ... está tudo dentro de ti, basta... tu sabes o que basta enquanto falamos um com o outro. Não há espaço para mentiras.
Oh Livro, "posso ler-te"? A tal piada com a qual tu te ris com o umbigo.
Na tua realidade há realidades. Dentro de ti posso ser aquilo que eu quero e entrar em mundos sentidos, e começo a perder a razão. Há sorrisos e chávenas de café. Há sofás confortáveis, com anos de tempos guardados, de segredos, de ponteiros parados, de beijos congelados pelo ferver do coração.
Prefiro perguntar-te isto, ao contrário dos outros:
Livro, ... posso viver-te?

Ao som de: Michelle Featherstone "Coffee & Cigarettes"

Não Contemos ao Dia os Segredos da Noite (D. Marny & J.P. Gourévitch)

domingo, 16 de janeiro de 2011

A vida deles recomeçou com uma caixa de fósforos. Numa noite de tempestade.
A simplicidade das coisas é tão grande que, por vezes, parece tão inconcebível que se ignora. É simples demais e, por isso mesmo, passa ao lado. Só o difícil merece, realmente, atenção. Só o desafio, só aquilo que faz suar, correr, chorar imenso, merece realmente a pena. Como as roupas caras, só essas é que são as de melhor qualidade, porque são caras.
Ela nunca foi cara ou brilhante como as jóias da ourivesaria.
Nunca exigiu grandes investimentos.
Não era dispendiosa ou exigente.
Era simples. De tão simples ser, tornou-se estranhamente difícil. Tornou-se assustadora.
O amor é assustador por isso. Pela sua esmagadora simplicidade. O homem não gosta dessa simplicidade, gosta de complicar para justificar pequenos rasgos que só se explicam pelo seu amor ao sofá velho, pelo outro corpo já conhecido de cor, pela casa quente de outrora.
Há explicações, sim. Mas velhas, canções conhecidas, há muito tocadas, e que todos conhecem. Há camadas de cobardia arrumadas em gavetas de luxo. Há de tudo um pouco, menos simplicidade. Menos amor. Há de tudo, menos simplicidade. Menos amor. Menos verdade. Menos. Menos. Menos de ti.
Tens nos olhos sonhos carregados que não realizas. Tens nas mãos desejos que não agarras. E tens na boca anedotas que escondem inseguranças. Tudo menos simplicidade. Menos amor.
São todos ridículos, menos ela. Ela nunca foi cara ou brilhante como as jóias da ourivesaria.
Nunca fez tatuagens quando faltava o dinheiro para a comida ou contas da luz.
Era simples, bela, e assustadora.
 E por essa razão, exactamente por isso, trancou-a num segredo, convicto de que, jamais, poderia contar ao dia os segredos da noite.

Ao som de: Yellowcard – Gifts and Curses
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