domingo, 9 de outubro de 2016

A Campânula de Vidro (Sylvia Plath)













Desde adolescente que a Sylvia Plath assumiu um lugar de encantamento nas minhas leituras. Talvez pelo lado sombrio, tão típico da adolescência, o meu fascínio foi-se adensando na leitura não só dos seus poemas como, também, da história da sua própria vida. Repleta de dissabores, tão encaixados na ideia fabricada do poeta atormentado. E ela era. Era também, inegavelmente, especial.
 
Mais do que um livro que fala sobre o abismo e a queda numa forte depressão, esta história reflete os meandros do terreno em que aquela doença, muitas vezes, começa a crescer.
São muitas as ilações do que, enquanto leitora, poderei retirar do que acabo de ler, no entanto, a relação com a mãe é determinante no declínio de Esther, que parece nunca entender, concretamente, o que se passa com ela.
 
Uma das principais características da depressão passa, precisamente, por esse alheamento e certeza de que nada se passa. Há uma confusão, apenas. E uma profunda tristeza. Mas a palavra, a definição, a coisa em concreto parece nunca se verbalizar. E esse sim, é um dos critérios definidores mais credíveis de quem sofre de uma doença que tem dentes, que morde, que esmiuça, que engole e escurece os dias, sem permitir questionar.
 
O livro parece dividido em duas partes.
A jovem Esther, talentosa estudante, ganha bolsas de estudo com frequência, até ao momento em que, fruto do seu trabalho e empenho, ganha uma bolsa que lhe permitirá trabalhar durante um mês numa revista com sede em Nova Iorque. Nesta fase, descobrirá amizades, nunca cimentadas profundamente, vontades nunca antes reveladas e o desejo de permanecer sempre ausente da sua casa de infância.
 
O segundo momento é pautado quando não é aceite para o Curso de Escrita Criativa, durante o Verão. E este é o momento prioritário da história: aquele Verão. E o seu declínio.
Fechada em casa com a sua mãe, Esther parece virar-se para dentro e todos os sintomas que eventualmente lhe pareciam inerentes ao seu temperamento, um cinismo limpo e cortante, uma língua afiada e uma estreiteza face aos sentimentos mais intrincados, sobem a galope e manifestam-se de uma forma a que, arrisco-me dizer, nenhum leitor ficará indiferente.
 
A escrita de Sylvia Plath é linda. Um livro lindo, com um tema obscuro. Só por aqui, a junção de coisas tão díspares e a capacidade da autora em casar a beleza de uma história tão triste com momentos de tanta sensibilidade, só me fazem enaltecer o meu antigo encantamento.
 

"Quer ela o soubesse ou não, tinha sido a responsável por todos os caminhos errados que tomara ao longo da vida, e por tudo o que de mau me acontecera desde então." p.127

 
A contemplação do abismo, a conquista deste sobre ela, resultam numa tentativa de suicídio. Uma tentativa desesperada de dizer aquilo que não conseguiu escrever nos seus inúmeros contos ou, melhor ainda, a falha de não apontar as culpas a quem sempre sentiu ser a razão da sua desgraça.
 
Num reflexo de amargura, de desespero e profunda tristeza, «A Campânula de Vidro» afigura-se à mais vertiginosa procura de si mesmo. O quanto profundo se pode cair na tentativa de nos encontrarmos, de perceber o conceito dessa liberdade tão almejada e até que ponto depende de nós começar de novo.
 
 
 
Um livro altamente biográfico, retratando um Verão que a própria Sylvia viveu, repleto de mensagens que induziram muitos críticos às mais variadas opiniões e, possivelmente, com muitos erros de interpretação.
Quanto à minha experiência de leitura, só o poderei recomendar com as ambas as mãos alertando para a sua profundidade, tristeza, cinismo e, simultaneamente, rasgos de uma esperança quase vã.
 
Impossível de esquecer e como já esperava, «A Campânula de Vidro» figura, agora, como um dos livros da minha vida.
Leia também.

2 comentários:

Sara disse...

Mesmo correndo o risco de ser chatinha cá vai: a liberdade de género é outro ponto essencial para a compreensão do livro - a personagem sofre uma série de pressões típicas de uma sociedade masculina, por exemplo, a nível sexual - a parte da virgindade e da compra dos contraceptivos corresponde a uma libertação. Isto torna o livro tão actual agora, como era na altura além da abordar o tema da saúde mental do ponto de vista feminino. De resto concordo com tudo na crítica. Fico contente que tenham feito uma nova edição do livro - não o tenho em papel. É o livro de uma vida!

Denise disse...

São muitos os pontos de análise para a compreensão deste livro, o que o torna ainda mais maravilhoso. A escrita de Plath é linda.
Obrigada pela visita, Sara :)

Beijinhos